É, confesso que não tenho postado na freqüência que gostaria e, por isso, acabo ocultando do blog situações interessantes e outras tantas inusitadas que tenho para contar. Mas eu tento ! I try, I try, ... rs
Então, sem rodeios vamos direto ao assunto. Ontem, estava eu no metrô indo para o meu recanto depois de um dia meio chato, acinzentado, cansativo, porém não pouco divertido. Eis que como de costume o coletivo estava cheio e eu estava de pé a ponto de puxar meu livro (enfim estou lendo sobre filosofia, assunto que sempre me despertou curiosidade), porém, não mais que de repente, a pessoa ao meu lado solta um inesperado "- Ai, meu Deus! Não acredito nisso." Pensei ser mais uma das que classifico como "novatas em metrô" que reclamam de tudo durante a viagem e acham que as pessoas não darem espaço suficiente para elas se acomodarem é um absurdo. Como não me vi esbarrando na mulher, fiquei calada e mal olhei-a. Não tenho muita paciência para com desconhecidos. Passada uma estação, ouvi outra coisa soada com a mesma voz de antes: "- Não pode ser, é muita falta de sorte! Hoje não!" Olhei para o lado para reafirmar-me de que havia um palmo de distância entre nós, então as expressões não dirigiam-se a mim.
Então, no mesmo instante em que olhei a mulher vira-se para mim elevando a mão ao rosto tentando se esconder e com um sorriso no canto da boca começa a falar me olhando. Conclusão: ela estava tentando puxar assunto. E era comigo. Como não sou sociável com estranhos, apenas ouvi e retribui o sorrisinho no canto da boca. Mas a frase que ela me disse enquanto tentava se esconder me fez pensar rapidamente e traçar um perfil parcial da mulher. Ela me disse assim: "- Não pode ser ele. O garoto da internet. Eu só vou conhecer amanhã! Ele tá me olhando. Só pode ser ele. É muito parecido. Ai, logo agora que eu estou assim, mal vestida é que ele vai me conhecer ? Ele vai me reconhecer!" De imediato meu cérebro processou: mulher, morena, baixa estatura, solitária, poucos amigos, sonhadora, tímida, ingênua e com grau de invenção que beira a loucura. Pronto! Já era a minha intenção de me encantar mais com os pensamentos de Aristóteles no meu livro de filosofia. Afinal, eu tinha uma potencial doidinha ao meu lado e precisava ficar atenta pois ela estava tentando estabelecer contato.
Disfarçadamente olhei na direção em que ela havia olhado quando falou comigo. Nenhum alvo reconhecido. Só vi mulheres e velhos. Olhei mais uma vez para ter certeza. A mesma conclusão. Reafirmei para mim em silêncio que ela estava vendo pessoas e inventando histórias em sua particular loucura. O melhor a se pensar era que ela descesse em alguma estação antes da minha para eu ter um pouco de paz. Mas ela não parava de falar.
"- Agora ele me reconheceu! Ele olhou para a mãe, riu e depois olhou para mim. Se eu percebi que é ele, ele já sabe que sou eu também. Tudo bem que só nos conhecemos por foto. Mas eu já sei que é ele. Ele vai saber que sou eu, a da foto. Se eu conseguisse ouvir ele falar, eu teria certeza na hora. Se ele descer na mesma estação que eu, não vai precisar dizer mais nada, é ele mesmo! E se ele vier falar comigo? Ai, vou me esconder. Ele riu!" E mais um monte de blá blá blá. Eu já estava pensando em como ela podia ter tanta certeza e convicção ao mesmo tempo que desconfiava ser o tal cara, além de só conhecer ele por foto mas se ouvisse a voz dele teria certeza da pessoa. E mais, como ele poderia estar falando com a mãe dele se eu só tinha visto homens velhos e as mulheres certamente não tinham idade para terem filhos daquele tamanho! E como ela sabia que era a mãe do cara? Será que a mãe mandou foto para ela também?
Para não me igualar na loucura do assunto, perguntei: "- Ele está aonde? Quem é?" Daí ela me deu a localização exata da pessoa e eu identifiquei um típico nerd de costas sem nenhuma mulher por perto e que sequer olhava em nossa direção, absorto em seus pensamentos. É ... e ela não descia em nenhuma estação.
Tão instantaneamente como quando começou a falar do nada, ela mudou de assunto para sua faculdade que ela não agüentava mais, definindo-a como "mundo de loucos". Prontamente perguntei se ela cursava psicologia e ela negou, para minha surpresa. E pasmem, o curso para loucos referido era ... serviço social! Daí, já tinha dado corda e acabei cedendo ao assunto. Entre conselhos dados e um "-Ai, meu Deus, não pode ser ele! É ele!" constante entre uma frase e outra fui tentando ser agradável.
Já cansando de me iludir que ela desceria na próxima estação, indaguei: "Você vai descer em qual?" Advinhem a resposta ??? Era a mesma estação que a minha! Pois é, a filosofia ficaria para outra hora, agora só haveria mesmo a filosofia da loucura para me entreter. Lá estava eu, ouvindo toda uma explanação em loop que alternava entre um curso de serviço social que a deixava "em desespero" como ela sempre repetia, um provável namorado virtual que resolveu se materializar no mundo real e a saga da talvez mais audaciosa decisão que ela tomaria este ano: trocar ou não de curso e fazer outro vestibular.
Uma estação antes da minha, ou melhor, nossa estação, o nerd desceu. Era a deixa para a ato final da peça que eu assistia. "- Pronto! Agora não precisa falar mais nada! É ele. É ele mesmo. Eu sabia! Ele mora perto de mim. Somos quase vizinhos!" Dei um sorriso, afinal na próxima estação eu iria descer, haveriam os agradecimentos, a cortina iria se fechar e a atriz iria para um lado e a sua única espectadora iria para outro. Que alegria!
Mas tudo bem, não era um show mas ainda tinha a saideira. Descendo as escadas ela me diz que outro dia um homem ligou para a casa dela por engano e ao perceber o sotaque do dito cujo ela notou que ele falava de Portugal. Ora pois, é não é que ela me disse que a mãe dela já estava reclamando que o gajo estava falando com ela há mais de 6 horas no telefone ?!?!?!?!?! Acreditem se quiser! Um engano telefônico que durou 1/4 do dia. Tudo bem, eu devia ter lembrado a ela que em Portugal a moeda é o euro, inclusive a conta de telefone era paga em euros, mas isso poderia constrangê-la e já era a saideira mesmo. Apenas sorri. Segui meu caminho pensando. Como diz o ditado de médico e louco todo mundo tem um pouco.
Um comentário:
Muito boa essa....quer dizer agora estou relendo... rsrsrs
Acho q deveria investir nessa área.
Sério!!!
Bjus
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